7 de julho de 2019

MÚSICA: João Gilberto, gênio modernizador da música brasileira, fez a revolução com silêncio e sons.

João Gilberto em show de 2008 —
Foto: Marcos Hermes / Divulgação
"Melhor do que o silêncio, só João". A sentença proferida por Caetano Veloso em verso da música Pra ninguém (1997) sintetiza a dimensão singular de João Gilberto Prado Pereira de Oliveira (10 de junho de 1931 – 6 de julho de 2019) na música do Brasil.

Pode-se dividir a música brasileira entre antes e depois de João. Nesse sentido, João Gilberto pode ser considerado o maior nome da música do Brasil até porque outros grandes nomes – Caetano, Gilberto Gil, Gal Costa e até Roberto Carlos, que imitava João no início da carreira em 1959 – se influenciaram e se pautaram por João.

Talvez tivessem até seguido outro rumo profissional se não tivessem sido impactados, em agosto de 1958, com a audição do disco de 78 rotações com a revolucionária gravação do samba Chega de saudade (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1958).Nascia a bossa nova.


João foi gênio ao inventar a bossa nova. Ao morrer neste sábado, 6 de julho, João Gilberto se eterniza como a síntese perfeita dessa bossa, o samba com a tal influência do jazz que inseriu o Brasil no mapa-múndi musical a partir de 1962.

João Gilberto mudou e modernizou a música brasileira em 1958 ao apresentar ao mundo a batida diferente que pode ser entendida como a própria bossa nova.

E o que ele fez, afinal? João fez sozinho a revolução ao minimizar a cadência do samba nas cordas do violão – na tal batida que ele depurou paranoica e incansavelmente ao longo dos anos 1950. Essa revolução se completou com a opção de João por integrar a voz com o arranjo, sem que o cantor sobressaísse em relação aos músicos. Nascia um som leve, harmonioso, original, refinado. Único.

João era músico. E, quando cantava de forma inovadora em tons macios, ele se portava como músico. A lição foi ensinada ao mundo nos três primeiros álbuns gravados pelo cantor na gravadora Odeon – Chega de saudade (1959), O amor, o sorriso e a flor (1960) e João Gilberto (1961) – na sequência do compacto com Chega de saudade. Está tudo lá, nessa santíssima trindade da discografia brasileira.

João continuou trabalhando, fazendo discos e shows em intervalos irregulares, após essa trilogia. Por vezes, bisou a perfeição dos três antológicos álbuns iniciais, como no álbum Amoroso (1977), disco gravado com cordas orquestradas com leveza pelo maestro alemão Claus Ogerman (1930 – 2016) sem trair o espírito da bossa e do canto de João.

Contudo, se for para conhecer a genialidade do mestre que se tornou mito, é melhor ir direto nesses três discos para apreciar a síntese da cadência bonita do samba no violão. O violão de João apontou um caminho ao evocar a marcação do tamborim na simulação da batucada do samba.

João foi perfeccionista ao extremo. Isso o tornou gênio. Mas também desenvolveu um temperamento cada vez mais arisco, pouco sociável. Foi genial e genioso.

Mestre nas divisões, hábil nos atrasos e adiantamentos que tornavam único o canto dele, João admirava o silêncio. Foi no silêncio da solidão em que depurava uma música, com o ouvido absoluto que tinha, que João parecia escutar mais do que todo mundo.

João Gilberto ouviu o que ninguém ouvia. Por isso, João foi gênio e mudou a música brasileira, se eternizando já em 1958 como o espírito da bossa nova.

É por isso também que Caetano Veloso tem razão quando sentencia que, melhor do que o silêncio, só mesmo João Gilberto.

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